Aids não é uma sentença de morte

Bill Clinton

Os historiadores revisitarão nossa época e verão que nossa civilização gastava muitos milhões de dólares educando as pessoas sobre o flagelo do HIV e da aids, que já custou 25 milhões de vidas e poderá infectar 100 milhões de pessoas ao longo dos próximos oito anos. Mas o que eles não acharão tão civilizado é nossa incapacidade de tratar 95% das pessoas com a doença.

Dado que a medicina pode fazer com que a aids deixe de ser uma sentença de morte para ser um mal crônico e reduzir a transmissão da mãe aos filhos, nossa sonegação de tratamento parecerá, aos futuros historiadores, medieval, como a sangria.

Considerem que há perto de 6 milhões de pessoas com aids no mundo em desenvolvimento que deveriam estar recebendo tratamento, mas não estão.

Isto não inclui as 36 milhões de pessoas ao redor do mundo cujas infecções precisarão de tratamento nos próximos poucos anos.

Mundialmente, 14 mil pessoas estão sendo infectadas pelo HIV a cada dia, e o número de pessoas com HIV ou aids mais que dobrará até 2010.

Para aumentar o horror, milhões de crianças vêm ao mundo portando o HIV. Sem tratamento, elas também ficarão doentes e morrerão - não antes de assistir a seus pais morrerem, deixando-as órfãs.

Confrontados com esses fatos terríveis, podemos dar aos historiadores do futuro nossas desculpas: países demais ainda negam as dimensões do problema e o que tem de ser feito sobre ele; muitos países não têm a infraestrutura nacional de saúde para tratar tal doença; a maioria dos países não tem pessoal de saúde suficiente para manter um complicado programa de tratamento; as drogas necessárias são caras e inacessíveis às pessoas nos países mais pobres e mais atingidos.

Mas esses fatos só servem para sublinhar a extensão do problema. Não justificam nosso fracasso em reconhecer os imperativos morais e práticos para montar um programa de tratamento completo em conjunção com esforços contínuos de educação e prevenção.
Algumas pessoas argumentam que o tratamento é menos importante do que a prevenção; um dólar gasto com prevenção, dizem elas, faz mais para deter a disseminação da doença do que um dólar gasto no tratamento de alguém já doente. Mas esta é uma escolha falsa. A prevenção não funciona, a menos que grandes números de pessoas aceitem fazer testes. Elas não aceitarão se tudo o que forem descobrir é que vão morrer.

Elas deveriam fazer testes, é claro, para salvar as outras. Mas elas querem salvar suas próprias vidas também. Se nos concentrarmos no tratamento além da prevenção, várias coisas boas vão acontecer.

Mais pessoas vão parar de sofrer em silêncio e vão querer fazer o teste do HIV se oferecermos tratamentos que prolonguem suas vidas e poupem as vidas de outras. Pessoas que têm a doença viverão vidas mais longas e saudáveis.

Isto fará grande diferença não só para elas, mas para empresas que manterão trabalhadores produtivos, governos que gastarão menos cuidando daqueles com males provocados pela aids e crianças que não querem virar órfãs.

Talvez os maiores beneficiários dos testes sejam as grávidas ou as mães de recém-nascidos, que podem transmitir o HIV a seus bebês no útero ou pela amamentação. Se o teste der positivo, elas podem receber novas drogas capazes de reduzir as chances de tais transmissões em 50% e dar vida a uma geração de crianças hoje em perigo. Sei que as mulheres vão se submeter voluntariamente aos testes se estes forem acompanhados de tratamento. Quando visitei uma clínica de aids em Kigali, Ruanda, em setembro, jovens mulheres, muitas carregando bebês, faziam fila literalmente ao redor do prédio, esperando para fazer o teste e, se necessário, ser tratadas com drogas anti-retrovirais.

E à medida que mais pessoas forem motivadas a fazer o teste, mais pessoas receberão educação - com o potencial de salvar vidas - sobre a transmissão da aids, independentemente de sua saúde atual. Com uma nova geração atingindo a maioridade a cada intervalo de poucos anos, a necessidade de educação sobre a aids continua importante, e nenhuma quantidade de propaganda de massa pode alcançar o poder do aconselhamento direto - o tipo que pode ser oferecido por profissionais treinados em clínicas onde os testes e tratamentos da aids são realizados. Estes profissionais podem dizer aos pacientes como não espalhar a doença, se eles a tiverem, e como não contraí-la, se não tiverem.

Por meio dos testes, também podemos ajudar a pôr fim à discriminação das pessoas que contraem aids. Isso está de acordo com o tema do 15.º Dia Mundial da Luta contra a Aids, no domingo: "Viva e deixe viver: pondo fim ao estigma e à discriminação".

Quanto mais as pessoas entenderem que a aids é uma doença não só evitável mas também tratável, menos se afastarão daquelas que a têm. E à medida que mais e mais pessoas forem capazes de viver com aids, sua presença nas famílias, locais de trabalho e vizinhanças ajudará a reduzir os temores e falsos juízos sobre a doença.

O tratamento pode funcionar? Funcionou no Brasil, onde praticamente todos os pacientes de aids ganham acesso a drogas genéricas, capazes de salvar vidas, fabricadas naquele país. De acordo com um relatório da Fundação Ford, o Brasil, integrando seus programas de tratamento e prevenção, tem economizado US$ 422 milhões por ano, em parte porque o número de pessoas hospitalizadas com HIV ou aids caiu 75% nos últimos cinco anos. O índice brasileiro de mortes por aids e males relacionados baixou 50%, e a taxa de infecção é baixa e continua diminuindo.

Este sucesso pode ser repetido ao redor do planeta. Para promover o desenvolvimento de programas de tratamento da aids nos locais onde eles são mais necessários, minha fundação começou a assinar acordos com nações em desenvolvimento, incluindo Ruanda, Moçambique e os 15 estados da comunidade caribenha. Estamos enviando equipes de especialistas a esses países para ajudar os governos e instituições de saúde a desenvolver estratégias para estabelecer programas de teste e tratamento em grande escala para seus cidadãos.

São esforços pequenos, de base. Mas, se tiverem sucesso, salvarão muitas vidas e fornecerão um modelo para o resto do mundo. E o Fundo Internacional de Combate à Aids, que presido com Nelson Mandela, está ajudando a mobilizar os recursos e a liderança necessários para nos concentrarmos no tratamento e travarmos uma verdadeira guerra contra a aids.

Mais precisa ser feito também pelos governos, especialmente para responder ao pedido de Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas, por US$ 10 bilhões para combater a aids no mundo todo. Os governos também precisam pressionar as companhias farmacêuticas para que cumpram seus compromissos de fornecer drogas com desconto ou de parar de tentar bloquear a compra de drogas genéricas por países pobres. Finalmente, eles deveriam também ajudar os países em desenvolvimento a aumentar a oferta de trabalhadores do setor de saúde qualificados, pois sem eles um programa de tratamento é impossível. Muito está em jogo. A aids mata as pessoas em seus anos mais produtivos.

Como resultado, empresas em locais onde os trabalhadores estão doentes e morrendo perdem muito dinheiro. E países com grandes populações sofrendo de aids correm o risco de se tornar instáveis e suscetíveis às forças da ilegalidade, à fome, ao terror e aos apelos demagógicos dos ditadores.

Uma vez que a doença atinge proporções epidêmicas, é muito mais difícil para um país pobre estabilizar sua democracia, fazer sua economia crescer ou emergir como um parceiro responsável na comunidade global.

Por todas essas razões, podemos e devemos fazer mais para deter a disseminação da aids fazendo mais para tratar as pessoas que já têm a doença. Agora que temos a capacidade médica para salvar e melhorar as vidas de milhões de pessoas, não há outra escolha moral ou prática.

O autor foi presidente dos Estados Unidos de 1993 a 2001 - Bill Clinton
Fonte: The New York Times

Daniel Borges 03/12/02

Utilidade Pública HIV - AIDS