Retrato de otimismo e descrença na luta contra a Aids

"Cenário Cinzento"

Congresso em Hamburgo pinta um retrato de otimismo e descrença na luta contra a Aids

A Aids vem matando menos desde que a combinação de antivirais com uma classe nova de drogas conhecida como inibidores de protease passou a ser usada largamente. Os dados revelados na semana passada, em Hamburgo, Alemanha, durante a Sexta Conferência Européia sobre o Tratamento da Infecção pelo HIV, dão conta de que a letalidade por Aids, o número de mortes em cada grupo de 100 aidéticos, caiu em quase todo o mundo. Na Europa, a diminuição do número de casos fatais de Aids variou entre 14%, na Inglaterra, e 25%, na França. Nos Estados Unidos a queda foi de 13%. Outro indicador significativo, a taxa de mortalidade, ou seja, o número de aidéticos mortos em cada grupo de 100.000 habitantes, caiu, em média no mundo, quase 40%. A guerra contra a praga está ganha?

Os especialistas apressam-se a responder que não. Apenas uma batalha foi ganha, a primeira vitória na história da luta contra a doença, que já matou 4 milhões de pessoas em todo o mundo. "Há muito que fazer. Diria que o sentimento mais geral dos pesquisadores quanto às possibilidades de uma vitória definitiva contra a Aids passou de francamente pessimista para um otimismo cético", diz Manfred Dietrich, o médico alemão que presidiu o congresso. A maior estrela da especialidade no momento, o americano David Ho, diretor do Centro de Pesquisas da Aids Aaron Diamond, em Nova York, e pai da terapia agressiva que combina antivirais e inibidores de protease, reafirmou o que vem dizendo: "A situação não está preta nem branca. Está cinza".

Em janeiro deste ano, em uma reunião em Washington, David Ho mostrou ao mundo médico as provas de que o vírus da Aids é um inimigo ainda mais temível do que se imaginava. Ele apresentou o resultado das biópsias feitas em gânglios de pacientes em cujo sangue o vírus havia sido erradicado. Para desânimo dos pesquisadores, os gânglios ainda estocavam fragmentos virais. Alguns estavam bastante danificados pelos medicamentos, mas outros podiam se reproduzir, e, deixados sem combate, voltariam a infectar seu hospedeiro. "À pergunta se conseguimos erradicar o HIV de algum de nossos pacientes a resposta é inequivocamente não", afirmou David Ho aos colegas em janeiro. Na semana passada, ele tinha uma visão mais nítida do quadro cinza que pintou. David Ho disse na Alemanha que a terapia proposta por ele pode, em alguns casos, eliminar 99% do vírus do organismo, mas que para matar o restante vão ser necessários "novos métodos".

David Ho acredita que as novas terapias podem manter o vírus sob controle, especialmente nos pacientes que ainda não manifestaram a doença, mas não sabe por quanto tempo. Por várias razões. A primeira é a toxicidade. Muitos pacientes não resistem ao assalto químico dos inibidores de protease e podem até morrer do tratamento. A segunda é a resistência do vírus. Pesquisadores do laboratório Merck apresentaram um caso em que cepas de vírus de um paciente se mostraram resistentes ao ataque de todos os inibidores de protease conhecidos. David Ho teme mais a toxicidade. "Não acredito que a resistência a todas as drogas se torne um problema. O caso da Merck é uma aberração", declarou ele. David Ho acha que se deve tentar novas maneiras de conter o vírus restante no organismo pelo menos até que surja uma vacina, cujos primeiros testes ainda vão demorar de cinco a dez anos. David Ho aposta em alguma terapia revolucionária, como a multiplicação por clonagem das CD8, eficientíssimas erradicadoras de vírus, mas, infelizmente, raras células do sistema imunológico humano.

Fonte: http://www.humboldt.edu/~aids/

Daniel Borges 19/10/01

Utilidade Pública HIV - AIDS