Rio Começa a testas vacinas anti-Aids
O primeiro de um grupo de 40 voluntários no Rio foi vacinado ontem contra a
Aids. O voluntário, um carioca de 38 anos, participa de um dos maiores estudos
já realizados com vacinas contra a Aids no mundo. Os testes irão avaliar a
eficácia de duas vacinas (CanaryPox e VaxGen) na prevenção contra a doença.
O voluntário, identificado como R. R. M, é casado, trabalha como autônomo, não
está infectado pelo HIV e foi vacinado no Hospital São Francisco de Assis, no
centro do Rio como parte do Projeto Praça Onze. Ele ainda receberá outras três
doses do imunizante, daqui a um, três e seis meses.
— Seis meses depois da última dose, ele irá nos fazer numerosas visitas, nas
quais seu sangue será analisado. Nele, buscaremos marcadores que indiquem a
existência de anticorpos contra o HIV, o que indicaria uma proteção.
Avaliaremos também, em tubos de ensaio, se suas células T de defesa são
capazes de reconhecer uma célula infectada com HIV e destruí-la — explica o
infectologista Mauro Schechter, da UFRJ, que coordena o projeto no Brasil.
Voluntários serão divididosem três grupos
A pesquisa é a primeira de fase 2 com vacinas anti-Aids a ser realizada no
Brasil. Nesta fase, a vacina (que durante a fase 1 precisou comprovar ser segura
e capaz de provocar alguma reação) é testada de forma mais específica. Em
1994, a Fundação Oswaldo Cruz testou uma outra vacina contra a Aids, que
acabou provando ser ineficaz ainda na fase 1.
O atual estudo irá vacinar 120 pessoas até o meio do ano que vem (40 no
Brasil, 40 no Haiti e 40 em Trinidad e Tobago), tem apoio dos Institutos
Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA e está sendo conduzido pela UFRJ e pelas
universidades de Pittsburgh e Rochester, nos EUA. Um outro estudo, realizado
paralelamente a este, testa uma das vacinas usadas no Brasil (a VaxGen) em
milhares de pessoas nos EUA e na Tailândia, onde a pesquisa já encontra-se na
última fase.
As duas vacinas têm características bastante diferentes. A CanaryPox, ou Alvac,
é desenvolvida na França e consiste numa mistura de um vírus que
originalmente só infecta canários com pedaços do HIV copiados do vírus vivo
por meio de engenharia genética. Já a VaxGen (gp-120), desenvolvida nos EUA,
usa uma cópia sintética de uma proteína da capa do HIV.
— Acredita-se que a primeira ajude na formação de anticorpos, e a segunda
estimule o ataque das células. É importante ainda lembrar que, como são
feitas sem a presença do HIV completo, as vacinas não oferecem nenhum risco de
infecção para o paciente — explica Lee Harrison, da Universidade de
Pittsburgh.
Os brasileiros e demais voluntários que participarão do estudo serão
divididos em três grupos: um receberá uma combinação de VaxGen e CanaryPox,
outro apenas CanaryPox e o terceiro, placebo (vacina sem o princípio ativo).
— Ninguém receberá somente a VaxGen pois os testes com a vacina estão mais
adiantados nos EUA. Para nós, o interessante é saber se seu desempenho melhora
juntamente com a CanaryPox — conta Schechter.
R.R.M disse estar muito feliz em participar do projeto:
— Sei que o estudo é um passo importante na busca da vacina definitiva contra
a Aids.
Fonte: ABRASP - http://www.abrasp.org.br/
Daniel Borges 06/11/01