Secretário geral da ONU envia mensagem
a Porto Alegre
Nova Iorque - Estados Unidos, 28/01/2003 - 02:54
Kofi Annan declarou apoio aos participantes do Fórum Social Mundial, em mensagem transmitida por Nitin Desai, subsecretário-geral para Assuntos Econômicos e Sociais da ONU."Tenho grande prazer em saudar este Fórum. Vocês se reúnem num contexto de grande ansiedade - a possibilidade de guerra no Iraque, a proliferação nuclear na península da Coréia, a escalada de violência no Oriente Médio e a possibilidade de novos ataques terroristas.
Na verdade, o Conselho de Segurança está atualmente enfrentando uma das maiores provas de sua história e neste exato momento se reúne em Nova Iorque para ouvir os relatórios do andamento dos trabalhos dos inspetores de armas da ONU no Iraque.
Eu compartilho de sua ansiedade em relação a todas essas crises, e quero assegurar-lhes da minha determinação em continuar me empenhando ao máximo para enfrentá-las dentro dos princípios da lei internacional e dos determinados pela Carta das Nações Unidas. Mas vocês também estão movidos por profunda preocupação em torno de um grande número de outras questões que estão no centro da expectativa mundial por segurança, prosperidade e paz. O drama das pessoas mais pobres e dos países menos influentes do mundo; a disseminação indiscriminada da AIDS; o contínuo saque aos recursos do meio-ambiente; a injusta distribuição dos benefícios da globalização; as barreiras comerciais e subsídios que negam aos países em desenvolvimento uma oportunidade justa de competir na economia global ou tornam mais difícil para alguns deles enfrentar suas crises de saúde pública - estes fatos e ameaças requerem igual atenção da consciência, dos recursos e da vontade mundial.
Entretanto, como vocês, preocupa-me que estas questões sejam negligenciadas, que sejam vítimas de falta de atenção ou de conceitos conservadores de interesse nacional, ou que simplesmente não consigam permanecer no foco da atenção internacional quando tantas outras coisas estão acontecendo e poderão acontecer nas próximas semanas e meses. Isto se constituiria numa tragédia, ainda mais porque hoje estamos em melhor posição do que nunca para enfrentar estes problemas.
As conferências e reuniões de cúpula mundiais dos últimos anos fizeram com que os governos se comprometessem num alto grau político a abrir seus mercados aos produtos de países em desenvolvimento, a acelerar a redução da dívida, a aumentar as ajudas, a proteger o meio ambiente, e a colocar a questão do desenvolvimento no centro da construção de políticas. Além disso, temos mais do que compromissos, promessas e extensos planos de ação.
Na questão fundamental do desenvolvimento econômico e social, também temos diretrizes comuns a nos guiar: as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Partindo da redução da pobreza extrema pela metade, até o fim da disseminação do HIV/AIDS e o oferecimento da educação básica universal - todos antes da data-limite de 2015 - tudo isto representa um conjunto de simples porém poderosos objetivos que cada homem e mulher comum, de Nova Iorque a Nairobi até Nova Delhi pode facilmente entender e apoiar.
Embora pareçam ambiciosos, não representam só um desejo inatingível. Ao contrário, são completamente realizáveis, mesmo no curto espaço de tempo estabelecido. Os governos dos países devem agir para impulsionar a concretização das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Todos os órgãos principais do sistema das Nações Unidas convergirão para fazer tudo o que for possível fazermos para ajudar. Mas nem nós, nem os governos, agindo de forma independente, terão êxito sem o seu envolvimento - vocês, as forças dinâmicas reunidas em Porto Alegre. Vejo três formas principais através das quais vocês podem contribuir. Primeiramente, vocês podem fazer com que seus governos mantenham seus compromissos. O andamento disto será monitorado através de um conjunto de relatórios a serem produzidos num esforço comum entre os governos, as agências da ONU, organizações não-governamentais e outros parceiros. Isto lhes oferecerá uma oportunidade de manifestar suas posições, de enaltecer os governos quando estes estiverem cumprindo seus cronogramas ou de criticá-los quando os comprometimentos forem sendo adiados ou as prioridades tenham se perdido. Em segundo lugar, enquanto vocês cobram as ações de seus governos, eu gostaria que vocês também trabalhassem em parceria com eles, e também estabelecessem alianças mútuas, com agências da ONU e também com o setor privado. Tanto as ONG's como os empresários podem dar contribuições vitais, porém necessitam superar mentalidades auto-centradas e contra-producentes de desprezo e demonização mútuos. Em terceiro lugar, vocês podem enriquecer o debate sobre a direção a ser seguida pelo nosso sistema internacional.
Alguns de vocês têm opiniões fortes sobre a globalização. Podemos todos concordar que muitas pessoas e muitos países se beneficiaram muito pouco com a globalização, ou não se beneficiaram de forma alguma. Mas a questão não é se queremos ou não a globalização, mas que tipo de globalização desejamos. Nosso objetivo deve ser o de tornar a globalização um processo justo e que possibilite a inclusão. O engajamento de vocês continuará a desempenhar papel fundamental no esforço de moldar a globalização a fim de que ela ofereça oportunidades não apenas a uns poucos afortunados, mas a todas as pessoas, especialmente aos pobres e aos desprotegidos.
Em alguns momentos, parece que o sistema internacional permanecerá sempre refém do poder e minado pela ganância. Mas existem também momentos quando as oportunidades se apresentam. Este momento é agora. Este é o tempo em que devemos redobrar nossos esforços para construir um sistema de regras e leis, um sistema que seja aberto e justo, um sistema que não tolere pobreza ou injustiça, um sistema que corresponda às reais necessidades de pessoas reais. Isto torna vital para nós, na ONU, e vocês, na sociedade civil, que continuemos o nosso engajamento construtivo.
Atribuo a mais alta importância à esta relação, e à nossa busca comum de um mundo de paz, segurança e justiça. Dentro deste espírito, ofereço-lhes meus melhores votos para o bom êxito do Fórum.
Fonte: Fórum Social Mundial
Daniel Borges 28/01/03