Teoria de Darwin pode ajudar na luta contra a Aids
Quando Charles Darwin escreveu o celebrado "A Origem das Espécies",
em 1859, a humanidade ainda não conhecia o código genético humano nem o vírus
HIV, causador da Aids.
Mais de um século depois, o cientista britânico Steve Jones tenta mostrar como
as idéias de Darwin podem ajudar cientistas a descobrir a cura de doenças como
a Aids.
Durante uma palestra nesta terça-feira na Universidade de Londres, Jones, que
trabalha como professor da University College de Londres, disse que cientistas
devem começar imediatamente um amplo estudo não só do DNA (código genético),
como da origem do HIV.
Segundo ele, assim como os seres humanos, o HIV vem sofrendo mutações e
evoluindo ao longo dos anos. Na Rússia, por exemplo, há uma epidemia de quatro
subtipos do vírus. Uns mais resistentes a medicamentos, outros que demoram mais
para se manifestar no organismo.
Evolução
Soropositivos de países como o Brasil, a África e os Estados Unidos chegam a
manifestar até seis subtipos diferentes do HIV.
"Entender este processo e as diferentes formas de o HIV evoluir no
organismo é fundamental para o desenvolvimento de um tratamento que combata
todos os subtipos do HIV", explicou Jones.
O cientista conta que, para escrever "A Origem das Espécies", Darwin
estudou e comparou a anatomia de diversos animais, basicamente na ilha de Galápagos,
na América do Sul.
Para Jones, Darwin só pôde elaborar sua teoria porque tinha diferentes grupos
de animais para comparar uns com os outros.
"Hoje, sabemos que há, da mesma forma, vários tipos de vírus, e ainda se
tem todo o conhecimento genético, do DNA, desses microorganismos. Coisa que na
época Darwin não tinha. Por que não fazer o mesmo?", pergunta Jones.
Para ele, o estudo da evolução do HIV ajudaria cientistas a entender inúmeras
questões. A principal delas é descobrir o elo perdido entre o vírus que
infecta os seres humanos, o HIV, e o SIV (versão animal do HIV), que infecta os
macacos.
Já é quase um consenso entre os cientistas que o HIV foi transmitido de
macacos para seres humanos que os caçavam na África, por meio de arranhões na
pele.
Nos seres humanos, o HIV provoca estragos enormes, aniquilando o sistema imunológico.
Mas a versão do HIV em macacos causa nos animais pouco mais do que um simples
resfriado, segundo Jones.
Se aplicarmos a teoria de Darwin ao estudo do HIV, veremos que, por uma questão
de evolução, os macacos desenvolveram, ao longo dos anos, resistência ao vírus.
Entendendo como isto ocorreu, podemos ter respostas bastante
interessantes", disse Jones.
Jones lembrou ainda que alguns estudos realizados nos Estados Unidos e na Europa
já apontam a existência de seres humanos que são imunes ao HIV.
"Estudar esse mesmo processo nessas pessoas imunes ao vírus também seria
interessante", explicou Jones.
Evolução
O cientista acredita que, daqui a milhões de anos, a seleção natural tão
comentada por Darwin também levaria o HIV a um fim. "Quem morresse de Aids
morreria, quem não pegasse o vírus sobreviveria e ninguém mais passaria a
infecção adiante", explicou.
O problema, segundo ele, é que não há tempo de se esperar pela seleção
natural.
"Hoje, por causa da Aids, a expectativa de vida em países da África chega
a apenas 30 anos em alguns países. E cerca de um oitavo da população mundial
é portadora do HIV. Estudos amplos para saber de onde esse vírus veio, e para
onde ele vai, são fundamentais", explicou Jones.
Steve Jones é autor de, entre outros, "Almost like a Whale" (Quase
como uma baleia), um livro onde ele propõe atualizações à teoria da evolução
de Darwin. O cientista aborda alguns aspectos culturais não aprofundados em
"A Origem das Espécies".
Para ele, Darwin não conseguiu explicar como o ser humano acabou tornando-se
diferente de outros animais, desenvolvendo aspectos como inteligência e
cultura.
"A explicação está longe de ser descoberta. Estudando mais aspectos como
o desenvolvimento da linguagem e a genética pode nos ajudar", disse.
Fonte: ABRASP - http://www.abrasp.org.br/
Daniel Borges 06/03/02