Vacina
contra Aids é nova prioridade do Brasil
Mariana Timóteo da
Costa
O Brasil vai iniciar uma nova fase na luta contra a Aids. Depois de conseguir
fazer com que todos os soropositivos tenham acesso a medicamentos gratuitamente
- política pela qual foi recentemente elogiado pela ONU -, o governo brasileiro
quer investir em pesquisas e testes de vacinas contra o HIV.
Os especialistas acreditam que a vacina representará, no futuro, a cura para a
Aids, impedindo que o vírus se desenvolva no organismo do portador.
O governo brasileiro levará para a 14ª Conferência Internacional de Aids, que
começa no próximo domingo em Barcelona, na Espanha, novas propostas para tomar
a liderança, entre os países em desenvolvimento, do setor de vacinas de HIV.
Em entrevista à BBC Brasil, Rosemeire Muñoz, assessora responsável pela
cooperação externa do programa de Aids do Ministério da Saúde do Brasil,
disse que os investimentos em vacinas fazem parte de uma nova estratégia para
que o país continue sendo referência mundial no tratamento de Aids.
Liderança
"Para os países em desenvolvimento, a postura e a liderança do Brasil são
fundamentais no setor. Se os países mais pobres não se mobilizarem, nunca
conseguiremos pressionar os países mais ricos a doar recursos que possam nos
ajudar no combate à Aids", explica Muñhoz.
A assessora e o coordenador do programa de Aids do governo brasileiro, Paulo
Roberto Teixeira, participarão em Barcelona de um simpósio sobre vacinas que
terá a participação dos ex-presidentes Bill Clinton, dos Estados Unidos, e
Nelson Mandela, da África do Sul.
Atualmente, duas vacinas são testadas no Brasil, que faz parte da Iniciativa
Internacional de Vacinas contra a Aids (IAVI, na sigla em inglês), criada pelos
Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos.
Vacinas
As vacinas são a CanaryPox e a Vax-Gene. A primeira consiste numa mistura de um
vírus que só infecta canários e pedaços do HIV. A segunda contém uma proteína
sintetizada em laboratório que imita a parte externa do HIV.
As duas se mostraram capazes de estimular o sistema imunológico, para que ele
reaja na presença do HIV.
Os resultados preliminares dos testes, que são liderados pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda não foram divulgados.
Mesmo alertando que ainda vai demorar para uma vacina contra a Aids chegar ao
mercado, Rosemeire Muñoz acredita que a imunização "mais cedo ou mais
tarde" trará a cura para a Aids.
"Não sei se a curto, médio ou longo prazo. O importante é o Brasil estar
lá para receber os benefícios o mais cedo possível", explica a médica,
garantindo que mais vacinas serão testadas em breve no país.
A política brasileira é elogiada por Joel Gallant, diretor da clínica de HIV
da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que também estará em
Barcelona e falou à BBC Brasil.
Para Gallant, países que investem e buscam novas alternativas de terapias e políticas
de prevenção ao HIV têm mais chances de realizar parcerias internacionais e,
portanto, ter acesso a mais pesquisas cujo objetivo é combater o problema.
"O Brasil é reconhecidamente uma liderança neste setor. É incrível um
país que ainda luta contra a pobreza tratar seus pacientes com Aids de forma
gratuita. Certamente, temos muito que aprender e experiências para trocar com
os brasileiros", elogia Gallant.
Gallant conta que, em Barcelona, apresentará um estudo realizado pela
universidade que mostra como alguns soropositivos podem passar bem e não
manifestar os sintomas de Aids quando suspendem por alguns meses a terapia com
anti-retrovirais.
Fonte: ABRASP - http://www.abrasp.org.br/
Daniel Borges 05/07/02