Clonagem de Cheques

A ÚLTIMA DOS FALSIFICADORES

A industria da falsificação está em plena ascensão, devendo-se isso, é claro, à variada instrumentação tecnológica que hoje encontra-se disponibilizada no mercado interno ou externo.

Produtos dos mais diversos são copiados e colocados no mercado, ao arrepio dos detentores de suas marcas e sem o recolhimento dos devidos tributos. As ruas centrais das grandes cidades, além dos bairros de intenso comércio, transformaram-se em verdadeiras feiras livres onde comercializam-se toda a sorte de produtos de fabricação e origem duvidosas, muitas vezes espúria. As calçadas foram loteadas e barracas de todos os tipos e tamanhos ocupam locais que seriam de uso exclusivo dos pedestres.

Entretanto, é bom frisar que esse comércio informal, que tangencia a criminalidade no seu todo, e nele envereda muitas vezes porque serve de pontos de receptação a cada esquina, tem se agigantado por um problema cultural, que assola grande parte da nossa população, pois adquire mercadorias desses pseudos desempregados, que, por sua vez, são abastecidos e têm como fornecedores os donos dos mercados pirata, do contrabando e do descaminho.

Certamente, esses consumidores têm consciência do tipo de material que estão adquirindo, pois seria muita ingenuidade acreditar que determinado produto, como por exemplo um par de tênis que ostenta uma grife famosa, pudesse ser vendido pela quinta parte do seu preço.

Essas pessoas correm o risco de comprar brinquedos que não passaram por nenhuma inspeção e cujo material plástico pode provocar graves enfermidades às crianças; cigarros que contêm substâncias impuras e tóxicas; perfumes que causam problema na pele; tubos de cola que nada colam; pilhas que não suportam minutos de uso; CDs sem nenhuma qualidade de som e com menor número de músicas anunciado no encarte; vestimentas que não suportam a primeira lavagem; e até produtos direcionados a campanhas como por exemplo "O Câncer de Mama no Alvo da Moda", que gerou substancial queda nessa arrecadação de cunho social, pois o consumidor, apesar de querer participar, não atenta ou desconhece que os produtos originais devem vir acompanhados de certificado de doação.

É claro que também existem no mercado falsificações que induzem o comprador a erro, revestidas de extrema gravidade, tais como remédios, alimentos, bebidas e cosméticos, e que são punidas severamente pela legislação, que as considera crime hediondo.

E a falsificação de documentos, então? No mercado clandestino e criminoso encontra-se de tudo: Cédulas de Identidade, Carteira Nacional de Habilitação, CPF, comprovantes de rendimento, bastando o interessado "encomendar" e fornecer uma fotografia, culminando por receber um verdadeiro "kit estelionato". Isso resulta num festival de contas bancárias abertas de forma espúria, em nome de pessoas inexistentes, ou em nome de quem teve seu cadastro devassado, ou por um documento pessoal extraviado, que será o meio para recepcionar dinheiro obtido através de prática de estelionato, principalmente aqueles cujos autores oferecem nos jornais de grande circulação carro "OK" em condições vantajosas ou empréstimos pessoais.

A negociação é sempre realizada por de telefone celular pré-pago ou móvel - aquele que funciona em qualquer lugar , bastando colocá-lo na tomada - ou adquirido com nome falso. Esse conjunto de ações delituosas, todas praticadas à distância, são próprias do criminoso que age sob o manto da invisibilidade, no completo anonimato, cuja conduta criminosa foi amplamente favorecida pela sofisticada industrialização de documentos falsos, que hoje pode contar com farta instrumentação tecnológica. Porém, quando imaginava-se que, depois da clonagem de cartões de crédito e as transferências de dinheiro fraudulentas promovidas pela Internet fosse o pico da atuação das organizações criminosas, surge no cenário nova e sofisticada modalidade de falsificação: a clonagem de cheques bancários. Tudo começou com a adulteração de cheques de pequeno valor, aproveitando-se de quem não tomava os devidos cuidados na sua emissão e preenchia-os deixando espaçamentos que permitiam adulteração.
Depois veio a utilização de preparados químicos aplicados na cártula para apagar o valor e dizeres, alterando-os. Na seqüência, surgiu a caneta que é oferecida à vítima, cuja tinta é totalmente removida pela borracha que nela vem acoplada. Seguiu-se com a inovação de estelionatários resgatando cheques junto ao comércio, simulando serem funcionários do emitente, pessoa aparentando boa situação sócio-econômica, com a alegação de que o cheque utilizado era de uma conta desativada, motivo pelo qual ofereciam o pagamento em dinheiro, o que , convenhamos, nunca é recusado por nenhum comerciante. Pronto, ficavam na posse da matéria prima para posterior adulteração, com a vantagem adicional de que a vítima em momento algum vai desconfiar da trama, pois deu o cheque em pagamento para uma empresa idônea.

Já a clonagem, delito que seguramente deve estar gerando preocupação ao comércio e à indústria, inicia-se com a impressão das folhas de cheques junto a uma gráfica clandestina. Em seguida, os criminosos levantam os dados cadastrais dos clientes de determinadas instituições bancárias - provavelmente informações privilegiadas - e também pesquisam junto aos órgãos competentes sua situação creditícia, para não correrem o risco de utilizarem nomes constantes nas listas negras. Para a consecução da falsificação recorre-se novamente à tecnologia, pois com a utilização do computador, onde o outro usará programa com o qual criará um "layout", copiando as características do cheques pretendido, e fará uso de uma impressora a laser, que resultará numa impressão similar à utilizada na impressão dos cheques originais.

A Delegacia de Estelionato do DEIC - Departamento de Investigações Sobre Crime Organizado - a qual titularizou desde sua implantação em outubro do ano passado, descobriu essa inovação do mundo do crime e, no início de maio deste ano, desbaratou um grupo que direcionava-se a essa prática, apreendendo oito mil folhas de cheques espúrias (de quatro diferentes bancos), em branco e já clonadas, listas de correntista, centenas de cédulas de identidade em branco, assim como computador, impressora e disquetes contendo os programas para a leitura da falsificação. A Policia está sempre atenta, criando os antídotos para os venenos criados pelos criminosos

Manoel Camassa - Delegado de Polícia Titular
Delegacia de Estelionato - DEIC

Daniel Borges 19/09/2002

 

 

Introdução Utilidade Pública